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V(iv)endo por aí...

Olá, estou Viva da Silva e o meu ser habita por entre Livros, Amores e Lugares

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Atwood e as suas distopias aterradoras

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Esta edição de Órix e Crex (o último Homem) foi publicada em Portugal durante uma pandemia, apesar de Atwood ter criado este mundo distópico algures no final do século passado e início deste. O que não deixa de ser fascinante, ver como a mente desta mulher funciona, e a sua capacidade de visionamento muito à frente do seu tempo, talvez até um pouco superior à de muitos cientistas. Devo dizer que para mim, seria um tanto ou quando aterrador ler isto a meio duma pandemia, pelo que sinceramente tenho alguma dificuldade em perceber a estratégia de marketing por parte da editora que decidiu pegar e publicar esta série de livros distópica e pós-apocalíptica, nesta altura meio turbulenta. Existem mais dois livros referentes a esta admirável construção distópica de um futuro bastante possível, em que a humanidade é quase dizimada, por um cientista demasiado brilhante e demasiado socialmente inapto para ter merecido algum dia o poder e a responsabilidade que lhe foram concedidos.

Atwood chama-lhe ficção especulativa, no entanto é demasiado arrepiante pensar na possibilidade dum futuro onde a engenharia genética governa o mundo, de tal forma, que nada é impossível e imparável para o Homem, mesmo que isso até o possa vir a condenar. A estrutura do livro é muito semelhante à de A História de uma Serva, com a constante alternância entre momentos do passado e do presente, bem como extremamente rico em monólogos interiores e fluxo de consciência. Assim como n'A História de uma Serva, o final é também aberto, mas existe obviamente uma sequela (que até poderia nem existir), neste caso o livro é mesmo parte duma trilogia, em que o primeiro e segundo livro (O Ano do Dilúvio) aparentemente podem ser lidos isoladamente, porque complementam-se temporalmente, e depois existe então o desenrolar de ambos, num terceiro e último livro (MaddAddam). Acho que nunca pensei dizer isto, mas para mim, este segundo mundo distópico e pós-apocalíptico criado por Atwood é bastante mais perturbador do que aquele descrito n'A História de uma Serva. Isto porque aquilo que é o momento passado descrito no livro parece-me muito mais uma espécie de profecia de Atwood daquilo que hoje parece ter-se tornado realidade ou perto: alterações climáticas, engenharia genética, aumento das desigualdades, a tecnologia impera sobre tudo o resto, os valores humanos depauperados, e uma sensação de fim da Humanidade... 

Neste primeiro livro, a história é contada a partir do ponto de vista de Jimmy/Homem-das-Neves, que aparentemente é último Homo sapiens sapiens na Terra. Ele habita com uma nova espécie (de humanos melhorados?) criada em laboratório, os Filhos de Crex (Crexianos), que são passivos, dóceis, fisicamente perfeitos, desprovidos de inveja e ciúme, não entendem a violência ou o impulso sexual, e serão incapazes de manifestações artísticas ou compreender a tecnologia (ou outras criações feitas pelo Homem). Inicialmente a descrição parece algo de alguém que estava completamente dopado e um universo demasiado fantasioso, o que não corresponde de todo ao âmago desta história, e temos de simplesmente aceitar que custa um pouco a entrar na mente fantástica e absurda de Atwood. À medida que a história avança, através das lembranças de Jimmy, vamos descobrindo toda a sequência de eventos que levaram à queda da humanidade como ele a conhecia (que era o tal mundo distópico, futurista e meio inquietante). 

Atwood pega numa tendência atual (que não era nada atual quando ela criou esta narrativa), a engenharia genética, extrapolando-a de forma insana para criar um mundo horrível de disparidade social, violência, híbridos genéticos, manipulação do corpo, busca pela perfeição/ imortalidade e de vírus macabros produzidos pelo homem que conduzem ao caos e à dizimação de várias espécies.  

A imaginação desta autora parece não conhecer limites e o seu domínio da língua é assombroso (a tradução de Ana Maria Chaves e Ana Mafalda Costa está igualmente fabulosa). Para além de ser uma distopia fantasiosa, absolutamente bem escrita, é também um livro profundamente filosófico que levanta inúmeras questões (bio)éticas: será sensato alterar artificialmente algo criado e aperfeiçoado pela Natureza ao longo de milhões de anos?; um só homem tem o direito de criar um “humano perfeito” e decidir quem vive e quem morre?; o que é isso do "humano perfeito"? Existe até um momento em que o "último Homem" recorda uma dessas conversas com Crex, sobre os supostos efeitos nocivos do amor e da arte que no fundo, alega Crex, levarão ao desencadear de todos os males que assolam a Humanidade:

- Crex: Aquilo que mudou foi o antigo cérebro. Lá se foram as características destrutivas, aquelas responsáveis pela doença do mundo. O racismo, por exemplo. As pessoas no paraíso pura e simplesmente não viam a cor da pele […] como não eram caçadores nem agricultores não havia qualquer fome pela terra, qualquer território […] a sua sexualidade não era um constante tormento ficavam com o cio a intervalos regulares como outros mamíferos […] Eram perfeitamente ajustados ao habitat e, por isso, não precisariam de criar casas, ferramentas ou armas ou, por falar nisso, roupa. Não teriam de criar nenhum desses simbolismos perigosos, como reinos, ícones, deuses ou dinheiro.

- Crex: Quanto desespero inútil tem sido causado por uma série de desencontros biológicos [...] Como espécie, somos patéticos nesse aspecto: imperfeitamente monógamos. [...] Tenho um plano ainda melhor: torná-lo cíclico, e também inevitável, como nos outros mamífero. Assim, nunca desejarias alguém que não pudesses ter. 

- Jimmy: Isso é bem verdade [...] Mas pensa no que estaríamos a abdicar. [...] Então e a arte? [...] Todos esses desencontros a que te referes. Têm sido uma fonte de inspiração [...] Quando qualquer civilização é pó e cinzas, a arte é tudo o que resta. Imagens, palavra, música. Estruturas imaginativas. O significado, o significado humano, quero eu dizer, é definido por elas. 

Contudo, mais para o final do livro, existe um momento em que a autora parece quase refutar esta hipótese inicial, em que gira toda a narrativa de Crex. Será então o "amor e a arte" apenas fruto da construção social ou intrínsecos à condição Humana? Pergunto eu, isto porque, de facto parece-me que Crex tem alguma razão, quando alega que ao retirar todas estas construções sociais e que ao alterar a genética de modo a que exista um período de acasalamento (como noutros animais) bem como a que se alimentem apenas de todas plantas, existindo um mundo com abundância de alimento em que não seria necessário construir, criar, regar, cultivar, etc. deixando de lado para sempre as preocupações habituais que levam ao sofrimento, ciúmes e guerras. Mas lá está, o Jimmy tem toda a razão ao levantar as questões óbvias, até porque em primeira instância perdia-se o propósito humano, isto porque o ser humano é curioso, criativo e engenhoso por natureza. E depois existe a questão da palavra e da língua que está intimamente ligada à cultura dos povos. Assim, não faz muito sentido Crex ter dado todas estas características pseudo-superiores (retirando por completo as concepções sociais e ideologias) e depois os Crexianos poderem comunicar através da linguagem, algo que é completamente único no reino animal, distinguindo-nos sobejamente. Acho que fica por descobrir se os Crexianos são uma nova espécie desprovidos de humanidade, ou se pelo contrário, o projecto de Crex ficou desvirtuado, e estes são uma espécie humana geneticamente alterada, mas que é capaz de comunicar e aprender, com o último Homem que está cheio de construções sociais e Humanidade. E se as concepções sociais estão de facto intrinsecamente ligadas ao ser Humano, caberá sempre à sociedade desenvolver ideias e valores que sejam mais éticos e justos de modo a que a Humanidade não esteja realmente condenada ao fracasso.