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V(iv)endo por aí...

Olá, estou Viva da Silva e o meu ser habita por entre Livros, Amores e Lugares

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As histórias do Avô

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Armando Amaral da Silva era o seu nome, Senhor Capitão o seu título, mas nós chamávamos-lhe simplesmente de avô. Fará 20 anos, no dia 27 do mês da liberdade, que perdeu a sua última luta contra àquela “doença malvada”, partindo para outro lugar. Por ter partido cedo demais das nossas vidas, poderão os ingénuos pensar, que a figura do avô terno e dedicado talvez se tenha desvanecido das nossas mentes e que é raro recordarmo-nos dele. Porém, não podiam estar mais longe da verdade, e nós, os três netos, sentimos permanentemente a sua presença e, sobretudo, a sua influência em cada um de nós. A verdade é que o nosso querido avô, marcou-nos aos três da melhor forma possível e tem continuamente trazido as lições mais valiosas para as nossas vidas.

Sentir-me-ei sempre grata por ter sido a primeira e, por isso, ter conhecido o avô durante mais tempo, e, ainda assim, achar sempre que foi tempo insuficiente. Era eu uma jovem “mulherzinha” quando numa das últimas visitas ao hospital fiquei ali sozinha, por breves instantes, a olhá-lo acamado e a pensar na injustiça que sentia por ter de me despedir duma pessoa bondosa, que todos amávamos demasiado, e que teria certamente ainda muito para ensinar a cada um de nós. “Oh, sardanisca, chega aqui”, disse-me ele pela última vez. Anuí e aproximei-me da cama com alguma inquietação e desalento por vê-lo assim, já tão perto do fim. Surpreendeu-me com uma imensa lucidez para me dar um último conselho: deveria procurar fazer sempre o que me fazia feliz e que não devia me preocupar tanto. Nos últimos 20 anos procurei, pois, fazer as minhas escolhas nesse sentido, seguindo a senda do conhecimento constante com a minha intenção de querer saber sempre mais, bem como quando existia algo que me deixava insatisfeita tive a sensatez e a coragem de voltar ao início, reinventando-me e renascendo a cada jornada, buscando fazer algo que me faça realmente feliz, e que, por ora, é escrever. Se há algo que me recordo perfeitamente é de o acompanhar até à redação deste mesmo periódico e ficar fascinada com o ver nascer das palavras e das histórias incríveis que ainda hoje chegam, em folhas de jornal impressas, todos os meses até nossas casas. Havia ainda em mim o ribombar dum som distante, uma quase memória latente, que, em criança, me desconcertava e cativava, em simultâneo; um ato de escrita tão característico e incomparável, que é impossível de reproduzir. Não sei se ele estava apenas a pôr a escrita em dia, ou se o ato de escrever à máquina também o acalmava a alma, como me fazia a mim, na altura, ouvir aquele tilintar ritmado e enfurecido ou, como me apazigua agora, de cada vez que me sento na frente dum computador com a tela em branco por preencher.

O meu irmão confessa que a maior memória que tem do nosso avô deverá ser quando, ainda muito pequeno, nos fugiu, correndo sozinho rua abaixo e levando depois uma bela palmada no rabo assim que o avô nos entrou em casa. Aquilo que ele mais tarde percebeu, é que essa memória lhe está bem impressa na mente, não por ser parte de um trauma de infância mal resolvido (até porque o nosso avô era a pessoa mais calma e branda do mundo e não levantava a mão muito levemente), mas por ter sido um ato enorme de afeto. Essa repreensão só existiu porque, felizmente o meu irmão não se magoou, porém, esta história poderia ter sido diferente, e por vezes, para nosso bem e aprendizagem, é mesmo essencial que quem nos ama mais neste mundo nos censure e critique. Daí que faça sentido que este episódio seja o que meu irmão recorde com mais apreço; até porque ele tinha apenas 10 anos quando o avô partiu e serão já escassas as suas memórias dessa altura; guardando afincadamente no coração aquela que é por certo uma das maiores lições de vida e que o avô escolheu dar-lhe, mais a ele, mas também a mim e a todos nós da família mais próxima que, por inerência, ainda recordamos, ao dia de hoje, essa reprimenda atípica com igual afeto e nostalgia.

Já a minha prima foi a última a conhecer o avô, mas não menos privilegiada, absorvendo todas as memórias dos momentos em que passou nos seus braços. Alegadamente ela, em bebé, não gostava do colo da maioria dos homens, porém adorava o colo do avô. Talvez esta pequena curiosidade seja apenas uma manifestação duma característica intrínseca dela, em ser muito seletiva, já de tenra idade, e de escolher apenas o colo de quem mais lhe agrada; ou se calhar, já era a mais sábia de todos nós e sabia o pouco tempo que teria nos braços do avô, escolhendo absorver todos os seus instantes. Como se o que restasse do ato desse colo, fosse uma herança por osmose de tudo o que ela não iria poder aprender um dia mais tarde. Assim, cresceu sendo uma criança obstinada que praticou um pouco de várias modalidades sem grande destaque ou inclinação para alguma, mas fê-lo porque e, sobretudo, enquanto era feliz. E radiante, também ela acabou por encontrar o seu caminho na música, tendo aprendido e tocado inúmeros instrumentos; tal propensão e prazer que decerto herdou nessa difusão permeável dos feitios e aptidões através dos momentos de colo com o avô.

O nosso avô foi militar, um homem das forças armadas, mas a recordação que nos ficou é de que ele era sobretudo pela Paz. Lembramo-nos dele enquanto segundo pai, amigo e também como um homem erudito que apreciava grandemente a leitura, a música, a história, a tradição e o legado. Foi um homem bondoso, que contribuía sempre que podia e que, apesar da reforma, queria estar bem vivo e ativo na comunidade, tendo por isso, participado tanto no jornal O Carrilhão, como também na escola de música de Mafra.

Crescemos os três praticamente sem a presença física do nosso avô, mas a sua influência naquilo que somos hoje enquanto adultos é palpável, e a realidade é que cada um de nós, incorporou da forma mais harmoniosa possível tudo aquilo que o avô tinha para nos ensinar. “Saudade” é uma palavra diminuta para descrever o que sentimos quando nos recordamos, muitas vezes em silêncio, do nosso querido avô que tanta falta nos faz.

 

Artigo publicado dia 15 de abril de 2024 no jornal O Carrilhão, periódico de Mafra.